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Grande Artista e Goleador

Ainda os fundos

Numa altura em que me parece que alguns adeptos do Sporting, mas sobretudo de outros clubes ainda não perceberam bem para que servem e de que se servem os fundos, transcrevo um trabalho do Jornal Sporting sobre os mesmos. Talvez agora, que está explicado para que até as crianças entendam, percebam porque é que os passivos dos clubes aumentaram tanto nos últimos anos.

 

"Imagine que quer comprar uma casa mas não tem o dinheiro ou o interesse suficiente para fazer esse investimento. Encontra um conhecido que reconhece potencial na habitação, decidem avançar em conjunto e pagam 200 mil euros, 100 mil cada. Passados três anos, há uma oferta de 300 mil euros pelo imóvel e decide-se pela venda. Aqui entronca o primeiro lapso de raciocínio: à partida, seria algo bom porque recuperava o investimento e tinha um acréscimo de 50% sobre o gasto inicial; no entanto, e se tiver ficado encarregue pelas obras e pela manutenção, beneficiou da casa mas gastou mais do que veio depois a receber ao contrário do conhecido, esse sim um 'player' que apostou e saiu a ganhar. Agora, troque o ramo imobiliário pela indústria do futebol: bem-vindo ao reino dos fundos.

A recente troca de comunicados entre Sporting e Doyen recolocou na agenda uma questão pertinente do futebol actual e que já tinha sido abordada pelos responsáveis 'leoninos' no dossier de reformas entregues a variadas entidades do País e da Europa. Em resumo, e no que toca aos empresários, o Clube defende que se deve evitar situações em que os agentes fiquem com direito a percentagens de futuras transferências de jogadores - sobretudo para evitar eventuais focos de instabilidade - e, para tal, avança como solução possível a criação de um regime jurídico que delimite, de forma explícita, as diferenças entre a intervenção do agente como representante do atleta e como intermediário. Em relação aos fundos, a ideia passa por uma verdadeira regulamentação da actividade, proibindo qualquer interferência de terceiros nos clubes quer na direcção de transferência de jogadores, quer na relação laboral existente, evitando para isso que tenham participações nos direitos económicos. 

O Sporting está contra os fundos? Não, nada. Apenas pretende uma regulamentação que evite, por exemplo, casos de clara ingerência como aconteceu recentemente com o jogador Marcos Rojo, que se transferiu para o Manchester United. Até por uma razão lógica: todos sabem que o futebol português iria perder competitividade porque não estaria a lutar com as mesmas armas. Mas tudo se resume a uma qustão de percepção - em vez de meros detentores de parte dos direitos económicos de futuras transferências, deverá haver uma percepção de 'entidades financiadoras' onde a partilha reside apenas nas mais-valias. No fundo (que é uma palavra com tanto potencial para trocadilhos na escrita como aqueles que se tentam fazer nos bastidores por intervenientes que preferem não dar a cara), as megalomanias económico-financeiras que colocaram as contas das SAD no vermelho desequilibram as forças de uma relação que passou a ser benéfica apenas para um e colocaram os clubes, verdadeiros integrantes do universo futebolístico na condição de reféns. Como o tempo não volta atrás, os responsáveis 'verde e brancos' pretendem corrigir essa desproporção, alertando para as influências externas inimagináveis que hoje existem (ou se tenta que existam) na gestão desportiva das equipas.

Voltemos a um exemplo prático: um jogador chega a um clube por um milhão de euros, assina por cinco épocas com um ordenado de 500 mil euros brutos/ano e um fundo avança com metade desse valor da transacção. Passadas duas temporadas, e como se tronou peça fundamental na equipa, recebe uma proposta de dois milhões - é aqui que se gera o dilema que não o devia ser. Como o fundo tem metade dos direitos económicos e pode receber o dobro do que tinha investido, tenta forçar a venda do atleta recorrendo, por vezes - ou como se viu em casos recentes - , a chantagens e ameaças; no entanto, tendo em conta que o clube já gastou o dobro do investido em salários, seguros e prémios, entende não alienar por considerar que pode rentabilizar muito mais um jogador em termos desportivos e até financeiros (com um título de Campeão, uma ida à Champions, a participação numa grande prova de selecções, etc.). Por isso, das duas uma: ou ambas as partes passam a dividir realmente todos os custos e receitas com o activo, tornando esse acordo 'justo', ou, como diz o Sporting, apenas deverão ser consideradas percentagens nos direitos económicos a nível de mais-valias. Assim se defende os clubes, a questão do fair-play financeiro e, sobretudo, a verdade desportiva."
Jornal Sporting 28/08/2014

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