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Grande Artista e Goleador

O dia em que o Sporting tirou o futebol feminino do "anonimato"

Começo por dizer que espero que o Sporting aproveite aquilo que ontem se passou em Alvalade para que a Europa e o Mundo saibam que em Portugal o futebol feminino está a evoluir e que, para isso, e entrada em cena do Sporting Clube de Portugal foi fundamental.

O que se passou ontem não foi normal. Estavam mais de 10 mil pessoas num estádio, em Portugal, a ver um jogo de futebol feminino do Sporting quando o jogo (em que tinham participado equipas nacionais) com maior assistência no nosso país tinha sido o Portugal - Roménia, do passado dia 21 de outubro, onde se jogou a primeira mão do playoff de acesso ao Europeu deste ano.

O número de espectadores desse jogo? 3415.

O número oficial de ontem? 9263, mas garante quem esteve que muitos mais entraram sem passar pelos torniquetes.

 

Para terem uma noção do que isto representa e da força que o Sporting tem, deixo-vos alguns números:

- O Lyon, vencedor da última edição da Champions feminina, teve uma assistência média na prova de 11.035 espectadores

- O Frankfurt, vencedor da Champions feminina em 2014/15, teve uma assistência média na prova de 2320 espectadores

- O Wolfsburg, vencedor das edições de 2012/13 e 2013/14, o melhor que conseguiu nesse período foi uma média de 5174 espectadores

- A média de espectadores da Champions feminina na temporada passada foi de 3009 espectadores. Este ano está nos 1985, embora aumente exponencialmente nas fases decisivas da prova

- A final da Champions de 2013/14, jogada no Estádio do Restelo, teve uma assistência de 11200 espectadores

- A final da Taça de Portugal da temporada passada, levou apenas 2500 pessoas ao Estádio do Jamor

Já deu para perceber o que ontem se atingiu à escala nacional e europeia do futebol feminino.

 

O jogo nem era uma final... "Apenas" um jogo importante, sabendo que ainda faltam oito para o fim da Liga. Aliás, os adeptos foram com a noção que era neste jogo que era mais provável que perdêssemos pontos mas completamente sem noção do que falta jogar. Foram para apoiar numa oportunidade rara de ver a nossa equipa feminina sem terem de se deslocar a Alcochete. E sim, a localização da Academia prejudica e muito as assistências das nossas equipas (masculinas e femininas).

Claro que nenhum dos outros jogos tem o impacto deste. Toda a gente sabe que são as duas melhores equipas e é irrealista pensar que se todos os jogos fossem em Alvalade, teríamos sempre 10 mil nas bancadas. Não teríamos. A competitividade da nossa Liga é baixa e o interesse pela maior parte dos jogos acompanha o nível de competitividade. Mas seria irrealista dizer que facilmente teríamos uma média de 3 mil espectadores, se os jogos se jogassem em Alvalade? Não, acho que não. E com bilhetes pagos (recordo que o jogo de ontem foi de entrada livre).

 

Vamos ao jogo.

Duas equipas em igualdade pontual, que apenas tinham perdido quatro pontos em todo o campeonato, dois deles no confronto directo. O Braga, com uma diferença de golos muito superior, sabia que um empate os manteria a depender exclusivamente de si para arrecadar o título. Ao Sporting, só a vitória interessava, dada a noção de que a perda de pontos até final será pouco provável (porém, possível) para ambas as equipas e que a vitória dava uma folga de três pontos mais a vantagem no confronto directo.

O jogo esteve longe de ser um hino à modalidade ou uma forte campanha para o futebol feminino (futebolísticamente falando) mas teve entrega e emoção de sobra.

Mesmo que o tenha visto pela TV, sentia-se a tensão e o peso da responsabilidade aos ombros das jogadoras. De um lado e de outro, todas tinham a noção da importância do jogo.

As equipas equivaleram-se na maior parte do jogo e o Sporting, que à semelhança do que aconteceu em Braga, teve sempre mais iniciativa de jogo e criou as melhores oportunidades para marcar (mesmo que em número reduzido), acabou por vencer com justiça, praticamente no último lance do encontro.

 

Curioso como nestes jogos as jogadoras mais influentes têm mais dificuldade em sobressair. Embora tenham estado em bom plano, Solange Carvalhas e Diana Silva tiveram dificuldades em se impor, graças à vigilância apertada das bracarenses.

A mim, mais uma vez, foi Joana Marchão quem me encheu as medidas. Inesgotável na entrega ao jogo, qualidade na maior parte das acções, tanto ofensivas como defensivas e um nível de comprometimento e entreajuda assinalável. É difícil atribuir um prémio de MVP num jogo em que é a equipa que sobressai (e tão bom que é constatar isto) mas, a fazê-lo, o meu ia para a nossa lateral esquerdo.

Ana Borges merece também uma menção, pelo que lutou e pelo que tentou sempre empurrar a equipa para a frente. Acaba por ganhar a grande penalidade precisamente por acreditar que chegaria àquela bola primeiro que qualquer outra jogadora. Meio golo, é dela.

 

Agora, directamente para o Presidente Bruno de Carvalho (que, acredito, se manterá como tal por mais quatro anos), segue um pedido. Três dos cinco jogos em casa não coincidem com os da equipa sénior masculina e é meu desejo que tenhamos mais três jogos das mulheres em Alvalade. Trate lá disso. Para o ano, agilize-se o calendário para que sejam mais frequentes os jogos em Alvalade do que na Academia.

Elas merecem isso. Por tudo. Porque desde o primeiro dia demonstram um prazer enorme em representar o Sporting. Porque se dedicam e sentem o peso da responsabilidade de nos representar de uma maneira que faz corar de vergonha muitos atletas do plantel profissional masculino. Porque apresentam resultados e qualidade. Porque acredito que seja a vontade de muitos dos adeptos e, por fim, porque tão facilmente idolatro o Rui Patrício, como o João Matos, o João Pinto, o Pedro Portela ou a Solange Carvalhas.

Porque só há um Sporting e porque o sentimento de o ver ganhar e a vontade de o ver atingir a glória é, para mim, igual no futebol masculino ou feminino, no futsal ou no ténis de mesa.

 

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