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Grande Artista e Goleador

Entrevista: Francisco Geraldes

Estreou-se na Liga esta temporada, depois de 11 anos de formação e um ano na equipa B do Sporting. Como está a correr a experiência no Moreirense?
Está a correr bastante bem até agora. A nível estatístico não está a ser como ambicionava, porque só tenho dois golos e gostava de ter mais, mas o mais importante é que tenho estado a corresponder e até, se calhar, a conseguir superar as expetativas do primeiro ano.
 
E o Moreirense é o clube certo para evoluir e se mostrar ao Sporting?
Se é o certo ou não, não sei, porque nunca experimentei nenhum outro clube, mas até este momento tem corrido tudo da melhor maneira e por isso acho que é um excelente clube para evoluir e poder ganhar experiência na Liga.
 
Quando se é emprestado não há o sentimento de se estar a afastar do clube?
É um facto que acabamos por nos afastar do clube, sim, mas a política do Sporting é a de seguir os jogadores emprestados, pelo menos até hoje, e eu, porque tenho tido sempre feedback positivo do Sporting e um acompanhamento assíduo, não me posso queixar de me terem esquecido. 
 
Como foi sair de «casa»? Saiu de Lisboa pela primeira vez e do Sporting também…
Sim, foi a primeira vez e é sempre difícil. O período de adaptação não foi fácil, porque deixei tudo em Lisboa, família, amigos e o clube, mas quando a vontade de singrar é maior do que as dificuldades de estar longe, tudo é superável tendo em conta o objetivo final.
 
Chegou para ser opção de Pepa, mas Pepa saiu do comando técnico da equipa, e depois chegou Augusto Inácio, que já conhecia do Sporting. Como se lida com a mudança de treinador?
Tem de se lidar de uma forma natural porque estas situações fazem parte do desporto, e neste caso do futebol, quando os resultados não aparecem. O Pepa é um excelente treinador e de certeza que vai ter muito sucesso no futuro. Gostei de trabalhar com ele e desejo-lhe a maior sorte do mundo. Agora temos o mister Augusto Inácio que também é um grande treinador e com quem tem estado a correr tudo bem.
 
O que mudou com a troca de treinadores?
Muda sempre alguma coisa porque nenhum treinador é igual. Na forma de treinar têm métodos diferentes, mas o estilo de jogo é mais ou menos o mesmo. Em campo continuamos a fazer as mesmas coisas.
 
Tem mais liberdade com Augusto Inácio? Dá essa ideia…
Não, penso que é igual. Tenho a mesma, mas é um treinador que exige muito de mim e a cada dia que passa sinto-me melhor.
 
E jogar numa equipa com outros objetivos, diferentes dos que tinha no Sporting B, está a abrir-lhe os olhos para uma missão de sacrifício defensivo a que não estava tão habituado?
Sim, sim, isso sim. É uma realidade diferente daquela que encontrei na equipa B do Sporting, porque apesar de ser uma equipa B é sempre vista como sendo o Sporting e as equipas acabam sempre por se fechar mais. Agora é completamente o oposto. O Moreirense é que é a equipa «pequena» e, principalmente, quando joga frente aos grandes joga mais fechado e tem de explorar o contra-ataque. É diferente e isso tem sido positivo para o trabalho defensivo que, confesso, não tinha muito.
 
Gosta de marcar e, apesar de ter dito que esperava já ter marcado mais, fez dois golos importantes. Um ao Feirense, numa excelente apresentação e exibição, e outro ao FC Porto. Como foi este último golo?
Foi bom, mas acaba por ser só mais um. Mesmo assim, claro, por ter sido à equipa que foi e pelo simbolismo, de ter posto o Moreirense na meia-final, foi o mais importante de todos os que já marquei na carreira. Quando somos pequenos, pomo-nos a imaginar este tipo de golos e achamos irreal, mas consegui marcar e claro que isso me deixa satisfeito.
 
Como sportinguista, pela rivalidade, também?
(risos) Claro, como sportinguista também.
 
Esse golo colocou o Moreirense na final-four da Taça da Liga, pela primeira vez. Chegados aqui, qual é o objetivo da equipa nesta prova?
Vamos ao Algarve com a intenção de fazer as coisas o melhor possível. Quanto mais podermos sonhar e ambicionar, melhor. Já demonstrámos que nos podemos bater contra qualquer adversário e sabemos o que podemos fazer. Derrotámos o FC Porto e sabemos que não é fácil o que se segue [Benfica], mas já estarmos na meia-final é excelente. 
 
No campeonato é só a manutenção que interessa?
Sim, é obviamente que esse é o nosso objetivo. Saímos lá de baixo no último jogo e agora é continuar a subir. Já temos uma folga [pontos] maior com a vitória frente ao Belenenses e trabalhar assim será melhor. Agora vamos ao Dragão com a mesma ambição de conquistar os três pontos.
 
E tem também a ambição de marcar outra vez?
(risos) Claro, se possível.

Se marcar vai mostrar outra vez a caneleira, na qual tem a máscara do filme ‘V de Vingança’...
Sim.
 
Mostra-a sempre, porquê?
É uma questão que pode dar horas de conversa! Mostro porque muito do que penso está ali resumido. Tem tudo a ver com a mensagem do filme. Vi-o com o meu pai no cinema e marcou-me. Na altura não tanto porque com apenas 11 anos, não estava tão desperto e tão atento ao quão real, atual e verosímil é a mensagem do filme. Hoje, depois de ter estudado, ler muito e tentar perceber várias questões, identifico-me totalmente com a ideia revolucionária do filme.
 
Não se preocupa apenas com o futebol, não é? Há mais vida para além «disto»…
É. O futebol é a minha grande paixão, adoro este jogo, e não me vejo a fazer mais nada - agora sou jogador e um dia quero ser treinador, mas tal como não é o dinheiro que me move, não fecho os olhos à nossa sociedade, à política, economia, cultura…
 
É um dos nomes que se falam para regressar ao Sporting já em janeiro, já sabe alguma coisa sobre isso?
Não.
 
João Palhinha já regressou, isso motiva-o? Como vê a chamada dele por Jorge Jesus?
Claro, como disse anteriormente, no Sporting estão atentos aos emprestados e isso demonstra-o. Vejo a chamada dele à equipa principal com satisfação, felicidade e justiça. Além de ser uma excelente pessoa, como profissional ninguém tem nada a apontar-lhe. Só ele sabe o que trabalhou para conseguir ser chamado e é com todo o mérito que já lá está.
 
Perante este exemplo e pelo que tem feito sempre e, sobretudo, nestes últimos meses, acredita que também pode voltar?
Acredito, claro que sim. Foi com essa finalidade que vim para o Moreirense: com a perspetiva de voltar ao Sporting e conseguir chegar à equipa principal. O meu maior sonho - e só de imaginar me arrepio - é jogar no Sporting e em Alvalade. Cresci a ir ao estádio e a ver o Sporting jogar, a ver o André Cruz a marcar livres diretos ou o Paíto a dar uma ‘cueca’ ao Luisão no Estádio da Luz (risos). Cresci e fiz-me ainda mais sportinguista com alguns desses momentos. 
 
E acha que já está preparado para esse passo?
Acho que sim e acho que o que tenho feito tem demonstrado que posso vestir a camisola do Sporting. Além disso, porque tenho a ‘mentalidade Sporting’, que também considero importante dentro de campo. Sei que sinto o clube da forma que só a formação consegue sentir e que é difícil de explicar. Ninguém sua a camisola como quem a veste desde sempre. Muitas vezes os jogos ganham-se pelo que sentimos pelo clube e pela vontade de vencer por ele. Eu sinto o Sporting.
 
O que acha que pode acrescentar ao plantel do Sporting?
Esse sportinguismo que já falei e as minhas qualidades técnicas, claro. Sei o meu valor e aquilo que sou capaz. As minhas valências passam pela visão de jogo, qualidade de passe e também pela entrega que dou ao jogo. Dou tudo e não me limito a fazer o mais fácil.
 
Sente-me mais um 8 ou um 10?
Gosto de jogar em ambas as posições.
 
É também um jogador mais inteligente do que físico…
Sim e para mim isso no futebol é o mais importante. Claro que o físico conta, mas acho que quanto mais jogadores inteligentes uma equipa tiver mais perto está de atingir resultados e títulos. Quanto menos inteligente o jogador for mais aleatórias serão as decisões. É sempre preciso pensar mais à frente, ter noção dos espaços, das posições da equipa e dos adversários.
 
E o que é mesmo um jogador inteligente?
É aquele que melhor decide, tendo em conta o sucesso coletivo. A decisão até pode passar por uma ação individual, mas não é aquele que se cinge a seguir à risca aquilo que mandam as regras do ‘bom futebol’, como, por exemplo, procurar sempre superioridade numérica com bola. Há situações em que inteligência, aliada à criatividade, resolve os problemas que são encontrados no jogo. Mesmo sendo uma situação de dois atacantes para quatro defesas. Tem muito a ver com a capacidade de decisão, daí que quanto mais inteligentes forem, individualmente, os 11 jogadores, mais próxima está a equipa de ganhar o jogo
 
É um jogador menos individualista?
Não necessariamente, mas é por aí e pela reação e decisão. Tem a ver com a forma como vê o jogo e consegue ser rápido a tomar a decisão. Além disso, saber, como disse, onde está cada um e para onde será melhor jogar e não parar para ver e pensar o que fazer porque aí perde-se a vantagem de milésimos de segundo perante o adversário. Quem manda é quem tem a bola e o defesa vai sempre reagir àquela que for a decisão de quem ‘manda’.
 
Como é que se ganha essa inteligência?
Parte dela é já intrínseca, mas pode e deve ser sempre estimulada através de pensar o que fazer com a bola mesmo antes de a recebermos. A mim quem me ajudou muito nesse aspeto foi o João Mário. Fomos companheiros de equipa na B e ele achava que eu muitas vezes decidia só quando tinha a bola. Uma vez, num treino, chamou-me e perdeu tempo comigo. Falou-me de dois aspetos: de como controlar a bola e sobre a decisão. 

É por isso que é um dos jogadores que o Francisco admira?
Também, pela importância que teve no meu crescimento, e pelo jogador fantástico que é. É dos jogadores mais inteligentes que há atualmente. Não precisa de ser rápido, é inteligente e isso para mim é o atributo mais importante nos desportos coletivos.
 
Há muita gente a comparar o Francisco ao Adrien Silva, sobretudo nas redes sociais e quando não estão satisfeitos com o meio-campo do Sporting…
Sim, sei que muitas vezes se compara ‘o Francisco Geraldes’ ao Adrien Silva, mas também sei que somos jogadores diferentes, até porque não há jogadores iguais. Ele numas coisas é melhor, eu serei noutras. Faz parte. Mas o Adrien é o Adrien.
 
É difícil de o substituir?
Nenhum jogador é insubstituível, mas, claro, fazer a vez do Adrien não é fácil. Para mim, ele é um dos melhores box-to-box do mundo. É um pulmão incansável, que dá à equipa a estabilidade que é muito difícil de encontrar num jogador. Encontra-se num Ramires (ex-Benfica e ex-Chelsea) ou num Enzo Perez (ex-Benfica e Valencia), mas não é fácil. 
 
Curiosamente esses jogadores que já passaram pelas mãos de Jorge Jesus… já se imaginou a trabalhar com ele?
Quero vir a trabalhar, mas ainda não me imaginei. É um grande treinador, os resultados e os títulos falam por ele. O que ele já conseguiu não é fácil de conseguir: duas finais europeias, três campeonatos quase seguidos, entre outros títulos. Não é fácil.
 
Com que treinadores é que gostou de trabalhar no Sporting? 
Vários, o Sporting costuma ter grandes treinadores. Destaco o Hugo Cruz, Tiago Capaz, José Lima e João de Deus. Cada um com a sua importância. O último foi o mister João de Deus, que é um excelente treinador. Pedagogicamente é muito forte e, pelo menos, a mim mostrou-me que este não é um caminho fácil. Com a forma de ser mais rígida mostrou-me que se não fizermos por isso nenhum sucesso bate à nossa porta.
 
Internacional sub-18, 20 e 21. Falhou o último mundial de sub-20, mas ultimamente tem sido chamado para os sub-21. Sente-se certo já no próximo Europeu?
Trabalho para isso todos os dias. Tenho sido chamado e ganhado alguns minutos, espero conseguir lá estar. Serão chamados os melhores e acredito que posso estar nesse lote. Vamos ver!
 
Rui Jorge tem muitas e boas opções, não é?
Sim, acho que Portugal tem tido, também por força das equipas B, excelentes jogadores. Até mesmo na seleção A já há muitos jogadores sub-21 e que cresceram ali. Atualmente o grupo é muito forte e acho que por isso poderemos ser sempre considerados candidatos.
 
E o Francisco já pensa na seleção principal?
Não, não penso. Ainda nem me consegui impor nos sub-21, quanto mais pensar já nos AA. É preciso ir com calma.
 
Como é que tem visto o trabalho de Rui Jorge?
Como disse sobre o Jorge Jesus, os resultados falam por si. O que o Rui Jorge está a fazer na seleção é fantástico. A equipa joga bom futebol e tem apresentado resultados muito positivos, é praticamente imbatível. 
 
Todos os jogadores falam bem dele…
E só há razões, é uma excelente pessoa e é um prazer trabalhar com ele. Além do que se vê como treinador é muito direto e frontal, gosto disso.
 
Fonte: Mais Futebol

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